CONTO
…e mais uma coisa!

…e mais uma coisa!

O inspetor Raimundo era conhecido por três coisas: sua boina surrada, seu caderninho de anotações e sua mania irritante de sair das cenas dramáticas, voltar e dizer:
— …e mais uma coisa! — Esse era o seu grande momento, sempre que o caso parecia encerrado, ele virava, dava três passos, congelava, levantava o dedo e disparava:
— …e mais uma coisa! — Às vezes era algo importante, como:
— A vítima tinha alergia a abacate e o mordomo preparou guacamole. Coincidência? Acho que não! — Outras vezes… nem tanto:
— Eu deixei a torneira da delegacia aberta, se alguém tiver uma toalha, agradeço.
Certa vez, enquanto interrogava um suspeito perigoso, um tal de Bolacha, especialista em roubar padarias às 5 da manhã. Raimundo conduziu o interrogatório inteiro com seriedade e quando terminou, apenas saiu da sala, fechando a porta atrás de si, todos prenderam a respiração.
— Ele não vai dizer? — Sussurrou o estagiário.
— Vai sim. — Respondeu a detetive Clara, revirando os olhos. Na mesma hora, Raimundo abre a porta bruscamente, dá três passos em silêncio, inclina o rosto e arqueando uma das sobrancelhas, diz:
— …e mais uma coisa! Bolacha… por que usar uma meia calça com furos na cabeça? Você sabia que dava para ver sua cara inteira?
O bandido confessou rindo. Depois de anos, Raimundo se aposentou, mas, na festa de despedida, quando todos estavam prontos para cortar o bolo, ele fingiu sair, deu três passos, ergueu o dedo para o ar e disse pela última vez:
— …e mais uma coisa! Quem escondeu o meu pedaço de bolo, hein? Confessa, pois tenho faro para mistérios… e para glacês!


caralho, muito foda!!
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